quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Animalização do Homem: Uma Visão Ontológica do Ser Individual e do Ser Social

 1. Introdução

Rogério Lacaz-Ruiz
Prof. Dr. FZEA/USP
e-mail roglruiz@usp.br

Em dois dias podemos saber tudo de um homem, mas precisamos um pouco mais para conhecer um animal. (Provérbio Persa)
Todo ser age conforme é
(Adágio filosófico medieval)

A animalização do homem é um fenômeno que pode ser abordado de diferentes maneiras. Desde a consideração do homem que é animalizado por realizar atos não humanos até àqueles que são tratados pela sociedade como animais, passando pela animalização na forma de fábulas ou das histórias em quadrinhos. Um outro aspecto que vale a pena considerar é o de abordar os animais com os critérios humanos; projetar atitudes e sentimentos humanos no animal.

Quando o homem livremente se animaliza pelos seus atos é possível considerá-lo como um doente para si e para a sociedade. Neste caso, ele é classificado como um doente e a síndrome que o acomete bem merece um estudo especializado. O homem que é animalizado pela sociedade, o famoso "excluído", merece o resgate de sua dignidade. As fábulas exprimem o sentimento humano de forma atenuada pela fala animal. Algo semelhante aparece nas histórias em quadrinhos. Colocar sentimentos humanos nos animais, seria fazer algo semelhante a um transplante de cabeças.

Em sentido biológico, o homem não é o ser mais valioso da natureza. Se tomamos como critério a forma biológica, a independência do existir, o homem resulta inferior às plantas e aos outros animais. As plantas ocupam o cume da independência dos seres vivos. A nutrição dos animais depende dos organismos vegetais. E dentro do reino animal o homem é o menos independente de todos. Se o valor vital fosse a única medida de valor, seria preciso reconhecer que o homem seria um animal doente.

Sua fraqueza é evidente: seu sentido do olfato é dos mais imperfeitos, sua proteção natural contra o frio é praticamente nula, etc. O homem ao nascer, é a espécie animal doméstica, que carece de muitos cuidados, e por períodos prolongados, quando comparado com os demais mamíferos. Nesta fase, seu choro é praticamente a única forma de comunicação com os outros seres da sua espécie. Os outros animais, são bastante distintos. Logo que nascem, as crias começam a caminhar, e em poucos meses tem os mesmos hábitos, inclusive alimentares, dos pais. As crianças dependem dos pais; enquanto adolescentes, convivem com os pais. A maturidade, as vezes custa a chegar, e a velhice, não tarda.(Guardini, 1990). Mesmo em seus atributos específicos encontramos, por exemplo, que a memória vai se perdendo pela escrita e pelo impresso, que a civilização cria para o homem mais necessidades e doenças do que ele é capaz de satisfazer e curar.

Porém, para suprir sua impotência animal, o homem procede com mais inteligência e prudência que o tigre: o que se teme não é que a espécie desapareça (como seria de esperar do ponto de vista da mera aptidão animal para a sobrevivência), mas que cresça em excesso. Biologicamente o homem continua sendo um animal. Por um lado diminuído e doente, por outro aumentado em sua dignidade. A liberdade não é apenas um privilégio, mas uma prova disto. Podemos subir a escada do espírito, ou descer pela vertente de nossa animalidade frustrada, que definitivamente leva ao nada.

Desde que o homem foi classificado como ser vivo por Aristóteles, ele estava no Reino dos Animais. O mesmo o fizeram os que sucederam nesta tarefa taxionômica: Linnaeus (1735), Haeckel (1866), Copeland (1934) e Whittaker (1969). O homem, se considerado do ponto de vista biológico, é um animal.

2. O conceito de animalização

O dicionário Aurélio recolhe animalizar como sinônimo de tornar bruto, embrutecer, bestializar. A Encyclopedia Diccionario Internacional de W.M. Jackson, Inc. Editores, (Rio de Janeiro), recolhe o verbete animalisar (sic) no seu vol. I: "Reduzir aos instintos, aos appetites, aos gostos do animal; o philosophismo animalisa o homema religião divinisa-o/ por ext. Rebaixar-se, descer ao estado animal: Entregar-se as paixões brutas é, a bem dizer, animalisar-se." Por mais que um ser humano tenha apreço pelos animais, jamais gostaria de ver seus atos classificados como os de um animal. Se um homem pode atingir este estado de animalização, nada mais oportuno que considerar este fenômeno uma "doença". (Naturalmente, o fato recente da gíria "animal!" com valoração positiva é mais um exemplo do conhecido fenômeno - descrito por C. S. Lewis - de inversão da polaridade: o negativo pode significar positivo: o mesmo ocorreu com "tremendo", "formidável", "fantástico" etc.).

3. Questionamentos e comentários

Qual o alcance e o significado dessa triste possibilidade de animalização? Onde fica a liberdade humana? Quais as consequências do ponto de vista individual e social? Um animal diferente é o homem, pois tem a capacidade de se considerar como uma entidade independente, de lembrar o passado e visualizar o futuro, de usar sua razão para compreender e conceber o mundo, indicar objetos e atos por meio de símbolos e valer-se de sua imaginação.

Quanta fragilidade existe no homem! Ao nascer, carece de um protocolo vinculado a sua existência, que regulamente o processo de adaptação ao mundo que o rodeia. Não sabe porque nasce, ou quando vai morrer; custa a saber quem é e o que faz neste mundo. Pascal chega a afirmar que a vida se resume a conhecer quem somos e quem é nosso Criador. O homem enfim é livre e se alegra com este dom; a própria liberdade também é para ele fonte de angústia.

Os animais parecem ser mais livres, despreocupados e senhores de si mesmos. Parecem que estão sempre seguros de seus atos. Se por um lado isto parece ser uma visão antropomórfica (ou mesmo dos seriados televisivos do humor inglês); por outro, os animais tem uma razão para serem assim vistos pelo homem. Sua bagagem instintiva, seu protocolo vinculado a sua existência, é rígido. Todo homem é um animal, mas todo animal não é homem.

No "Prefácio" do livro Ética social e governamental, Lauand (1997) comenta: "Esse drama fundamental ético-existencial do homem transcende o âmbito da filosofia acadêmica e atinge a arte popular: é apresentado até numa recente canção, uma das mais inpiradas páginas de Milton Nascimento, Yauaretê (canção-título do álbum de mesmo nome). Inspirada no conto de mesmo título de autoria de João Guimarães Rosa.

Nesta canção, o homem dialoga com a onça yauaretê (o autor explica que o sufixo -etê, em tupi, significa o máximo, "de verdade", plenitude) pedindo-lhe - a ela que já atingiu o máximo de seu ser-onça: yauar-eté - que lhe ensine o correspondente ser-homem. E aí se retoma todo o problema ético, de Platão a Sartre: o que é verdadeiramente ser homem? Maria, a onça yauaretê, já realizou a plenitude do ser-onça (que se resume na "sina de sangrar") e o poeta, entre perplexo e invejoso, pergunta-lhe: E o que é ser homem? Entre outros versos de profunda sintonia com o pensamento clássico, diz a canção: "Senhora do fogo, Maria, Maria/Onça verdadeira me ensina a ser realmente o que sou (...)/Vem contar o que fui, me mostra meu mundo/Quero ser yauaretê/Meu parente, minha gente, cadê a família onde eu nasci?/Cadê meu começo, cadê meu destino e fim?/ Pra que eu estou aqui? (...)/Dama de fogo, Maria, Maria/Onça de verdade, quero ter a luz (...)/Me diz quem sou, me diz quem foi/Me ensina a viver meu destino/Me mostra meu mundo/Quem era que eu sou?" Que devo fazer para ser homem em plenitude, abaeté? Qual é a areté, a excelência, a virtude específica do humano?"

4. Os animais antropomorfizados

Um antigo conto diz, que no passado os animais falavam; mas perceberam que era melhor calar e assim permanecem até os nossos dias. As fábulas de um Raimundo Lúlio ou de um La Fontaine, sempre foram consideradas como uma forma amena de expressar algo que poderia ser incômodo, caso fosse dito com nome; e sobrenome. Os cartunistas como Bill Waterson e Fernando Gonzales, seguem em suas tiras de jornal, ensinando nas palavras proferidas pelos animais, lições de vida. A antiquíssima tradição crítica das fábulas de animais tem um representante atual na obra prima de Orwell: A revolução dos bichos. Os provérbios - também eles valem-se dos animais - são outra fonte inesgotável de resgate da personalidade humana. O conhecido "Cão que ladra não morde" pode significar que este cão, que está latindo tanto, não morde, mas principalmente alude às pessoas que ameaçam muito e não fazem.

Também as piadas - que quando forem contadas para ganhar mais graça podem ser anunciadas como uma história - mostram o binômio homem-animal de forma lúdica. Vale o exemplo do engenheiro de estradas que após vários dias de medição para fazer o melhor traçado de uma rodovia, foi abordado por um camponês, que perguntou. - Doutor, por quê o senhor está há tantos dias a medir este morro. O engenheiro explicou em linguagem simples a importância das curvas de nível. O homem do campo retrucou: - Mas para isto nós usamos o jumento, que é tão cuidadoso, e por onde ele passa, colocamos uma estaca e então fazemos a estrada. O doutor não gostou muito, e em tom de desaforo retrucou: - É meu caro, e o que vocês fazem quando não tem o jumento? - Chamamos um engenheiro...!

Todos os exemplos citados, tiram o equilíbrio ou a máscara dos seres humanos. A ironia, a farsa, a hipocrisia, a inveja, a fuga de si mesmo, estão nos ensinamentos dos animais antropomorfizados. A figura do Coelho com um despertador na mão, na obra Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol, retrata bem aqueles que sempre dizem "tenho pressa", que não tem tempo para pensar, e ainda chegam atrasados!

E os animais seguem seu destino, seu rumo, seu caminho, seu norte; seguros, pois tem um instinto que os torna previsíveis e passíveis de estudo. Quanto mais complexo e rígido for o equipamento instintivo dos animais, menor será sua capacidade de aprendizagem e menos desenvolvido será seu cérebro. O que torna os animais seguros, aos nossos olhos, é seu rígido instinto. Os estudos do ser humano, começam pela filosofia e abarcam uma série de ciências: a antropologia, a sociologia, a psicologia, e cada uma delas com tantas ramificações e escolas. É difícil descrever o ser humano com a mesma clareza contida num manual de biologia.

A razão, a benção do homem, também é a sua maldição; ela o força a resolver incessantemente a sua insolúvel dicotomia. A existência humana, nisto difere da de todos os outros organismos; acha-se em um estado de desequilíbrio constante e inevitável. Ele não pode voltar ao estado pré-humano de harmonia com a natureza; tem que prosseguir para desenvolver sua razão até que se torne senhor da natureza de si mesmo.

Na literatura brasileira, em Vidas Secas de Graciliano Ramos, podemos ver aonde chega o pensamento humano do poeta e escritor. Massaud Moisés (1997) analisa o binômio homem-animal, dentro de uma situação de penúria, infra humana: "A tendência à introspecção é outro aspecto desta originalidade. O narrador lança mão de frequentes monólogos interiores para suprir a falta de comunicação entre os retirantes e para lhes evidenciar a indigência verbal. O foco localiza-se mais na sua vida íntima que nas suas ações, ou porque irrelevantes, ou porque revelam monotonia de vidas sem desígnio, vergadas ao fatalismo do meio e ao arbítrio de homens despóticos. E quando esboçam alguma reação, logo se embrenham no cipoal das suas elucubrações. Nem mesmo as crianças escapam dessa fuga interior; a própria cachorra parece dotada de pensamentos. "Será que há mesmo alma em cachorro?", indaga Fabiano. Em suma, Graciliano procurava "estudar o interior de uma cachorra" como confessa nas Cartas (1988, p.194-5). O pendor para a devassa psicológica, que lhe caracteriza a ficção, está patente em Vidas Secas, apesar de toda a aparência contrária. A humanização da cachorra e do papagaio, assim como a animalização dos flagelados, já anotada pela crítica, é decorrência imediata." (Moisés, 1997) Neste contínuo ir e vir do homem e dos animais onde uma vida seca é uma vida infra-humana, há confusão do homem com o animal. Alguém "sem desígnio" é rebaixado a um animal, e o animal "fiel" nesta caminhada é humanizado.

Até há pouco tempo, a antropologia considerava o ser humano na simples condição de animal. E não temos dúvida de que o homem é também um animal. Sua morfofisiologia manifesta este fato de maneira inequívoca. Portanto, o lógico é aceitar a situação e não acreditar que somos algo assim como espécies de espíritos angélicos forçados a viver com uma certa roupagem corporal. Mas também é igualmente certo que por mais animais que sejamos, a coisa não chega a tanto que resulte inevitável o pessimismo de ter que abdicar, "humildemente" de nossa categoria de pessoas. Por isso, diante da abusiva solidariedade que alguns mostram com os animais, pode ser oportuno lembrar da estória do diálogo entre o pessimista e o filósofo. Aquele disse - Não somos ninguém. Isto foi suficiente para que o segundo retrucasse: - Especialmente você, meu caro...

A história dos esforços que foram feitos para animalizar o ser humano, tem como pano de fundo algo insuspeitavelmente irônico e divertido. Descobriu-se, há pouco, a nova antropologia (1).

De fato, ela pôde comprovar que o método que vinha sendo utilizado para estudar de forma neutra e objetiva ao homem e ao animal, não era tão neutra e objetiva como se havia proclamado. Pelo contrário, este método estava saturado de ideias e noções bem significativas e expressivas da existência humana. Certamente os antigos antropólogos souberam evitar a noção de espírito e de outras que resultavam, no mínimo, suspeitas. Por este ângulo não há nenhuma objeção. Mas em troca, foram demasiadamente favoráveis a vida dos animais, atribuindo a eles um tipo de ordenamento social, sanções, hierarquia e ritual e outros conceitos parecidos. Daí resulta que a simplicidade do método empregado foi apenas aparente, e que portanto, o que se vinha fazendo era um círculo vicioso: para explicar o ser humano com os modelos da vida animal, se começava por introduzir nestas categorias correspondentes a vida do homem.

A antropologia deste século, voltou a encontrar o homem, tirando-o do zoológico onde o haviam colocado cientificamente no século passado. Recuperou simplesmente a presumível animalização do ser humano, que não havia sido outra coisa além de uma humanização do animal. Ao estudar o ritual dos animais e se tentar tirar algumas conclusões do comportamento humano, estas podem ser muito interessantes se não se perde o ponto de vista, de que o que se faz é aplicar ao comportamento animal a ideia que o ritual já tem o homem a partir da religião e dos costumes sociais; isto é que já partimos de uma noção humana.

5. Homens animalizados

Animalizar, é colocar o homem nesta galeria pré-humana, que na realidade nunca existiu. As comparações, quando envolvem seres humanos, costumam ser deletérias para o convívio social. Se alguém infelizmente já presenciou o início de uma inimizade entre duas pessoas, pode reparar que esta começou com uma maledicente comparação; e quem fala mal dos outros, fala mal de si mesmo. Mas quando se compara o homem a um animal, quer dizer que ele se animalizou.

Vale lembrar que o homem tem a razão predominando sobre o instinto, e o animal só o instinto. Se o animal faz algo, o faz por instinto, mas se o homem deixa de usar a razão, como seu instinto é rudimentar, ele faz algo que não é próprio do homem. Animalizar é um eufemismo, pois infelizmente ele reduziu seu atuar a um reflexo, com algo que tem de mais precário: seus instintos.

6. Considerações finais

A personalidade individual do homem é embasada nas particularidades da existência humana, comum a todos os homens. Como dizíamos, a debilidade biológica do homem é evidente. E quando o homem deixa de raciocinar e não usufrui de sua inteligência, ele passa a equiparar-se aos animais, voltando a um nível inferior de desenvolvimento, tendo suas reações baseadas apenas em instintos; que são escassos.

A vontade, a inclinação humana, tem por objeto formal o bem. Só acidentalmente quer o mal; porque o seu entendimento o capta erroneamente como bem. O violento ("animal") se opõe à natureza humana. No sentido mais amplo, cabe chamar a vontade de natureza, uma vez que ela é uma inclinação natural e não uma necessidade de coação.

Querer a felicidade própria gera uma amplíssima margem de indeterminação pois são muitas as vias que a ela podem (ou parecem...) conduzir. Caracteriza o homem a vocação natural para o bem. A partir do momento em que o homem não raciocina e interpreta o mal como bem, mesmo sob o efeito de uma coação, e.g. uma pressão social; equipara-se assim o homem ao animal, pois este, não discerne entre o bem e o mal. Um predador não é capaz de compreender o mal que faz a sua presa. Quando o homem se animaliza e agride alguém, pensa somente em seu bem particular, não tendo noção do mal que causou à sua vítima (e, ao contrário do caso do jaguaretê, a si mesmo...).

Em contraste com o animal, o homem é um eterno insatisfeito; anseia pelo poder, amor ou destruição; arrisca sua vida por ideais religiosos, políticos ou humanistas. São justamente estes ideais que caracterizam a vida humana. Caracteriza o homem a noção de bem comum (2). O animal, mesmo que adaptado à vida em grupo, visa apenas sua sobrevivência, mesmo que tenha que aplicar um mal a outro ser - segundo o juízo humano -, tanto de sua como de outra espécie. O homem se animaliza a partir do momento em que vive apenas o bem particular, esquece que faz parte da sociedade e se torna um egoísta, mesmo que isto signifique um mal para os outros (e, portanto, para si mesmo...).

O homem, para não ser rebanho, massa, precisa preocupar-se dela, servindo-lhe de pastor, fermento. Não há alternativa ou se é levedura ou massa, ou pastor ou rebanho. Non ducor duco!. Cada um, atuando na sociedade e para a sociedade, vivendo a cidadania, demonstrarão a personalidade que cada um possui. O homem, quando não possui um ideal próprio, está se massificando. É como o animal que vive em grupo e apenas aceita, sem contestar o papel ao qual está acostumado a desempenhar. Ou seja, deixar-se levar pela corrente é massificar-se (3).

O homem, diziam os antigos, é fundamentalmente um ser que esquece. (Lauand, 1994) Esquece da sua dignidade como pessoa humana (4). Deixa-se levar pelas tendências da maioria, e quando menos se espera, acaba como um animal de um rebanho. O homem se aproxima do animal a partir do momento em que esquece a sua dignidade, seus valores, sua personalidade e se subjuga à uma situação onde sofra de alguma forma um dano físico, moral ou seja impedido em sua liberdade.

Ao libertar-se parcialmente das leis biológicas e físico-químicas, nascem nele aspirações à verdade, ao bem e a beleza. Como antes, olha para o universo, mas agora o contempla e o teoriza. Coloca seu juízo, sua vontade, seu agir ao serviço de um comportamento que sua razão lhe mostra como harmônico, reto e ordenado. E quando não age assim, atraiçoa e fere sua dignidade. No campo dos valores, da axiologia do ser humano, se não for potencializada pela ontologia, não tem nenhum fundamento.


  1. Alguns conceitos clássicos aqui abordados, foram recolhidos do ensaio El hombre y la sociedad, de Antonio Millan Puelles.
  2. O bem comum é o bem da sociedade porque beneficia a todos e a cada um dos membros de que esta sociedade está composta. Pelo contrário, o que beneficia a um só homem, ou a um grupo ou conjunto de homens que não são todos os que na sociedade se integram, é meramente um bem particular, mesmo no caso em que este bem seja lícito do ponto de vista moral. A exata compreensão do bem comum não pode ser meramente negativa. Mesmo que este bem leve consigo algumas limitações que a convivência implica. Para o homem é um bem poder dispor de meios para manter e fazer sua vida, não só no que concerne às necessidades materiais e sim também à sua natureza de pessoa. Mas quando alguém possui um bem particular em detrimento dos demais, deve ser sancionado. Todos devem ter bens particulares de modo que a ninguém seja permitido prejudicar ninguém.
  3. Um bom exemplo de massificação foi o que ocorreu na Segunda Guerra Mundial. Apenas um homem, Adolph Hitler, conseguiu implantar suas idéias radicais e racistas em milhões de pessoas, causando um dos maiores e devastadores conflitos mundiais.
  4. A dignidade da pessoa humana é compatível com a existência da autoridade, mas não com o abuso do poder. O que revela que a categoria própria do homem - a que se afirma quando proclama a sua dignidade - se expressa pela diferença que este tem com os seres carentes de racionalidade e liberdade: uma diferença que se reconhece em todo homem, e não só naqueles que detém o poder ou algo semelhante. Tudo isso é completamente lógico e se funda, de modo visível no conceito de natureza humana, que nos distingue dos animais, ao mesmo tempo em que dá a todos os homens uma profunda e essencial identidade, a que tem que atender às diferenças que entre nós existem. Contudo, o homem não deve ser individualista e refugiar-se apenas no seu bem particular. A dignidade da pessoa humana se pode definir como a faculdade que existe no ser humano, de exercer a livre iniciativa na vida pública. Isolar-se no bem particular é abdicar da categoria própria do homem. Aqueles que abandonam seus autênticos direitos se tornam escravos voluntários.

7. Referências

Referências Bibliográficas

  • Copeland, H.F. The kingdons of organisms, Quart. Rev. Biol., v.13, p.383-420, 1934.
  • Guardini, R. As idades da vida. São Paulo : Quadrante. 1990, p.83-93.
  • Haeckel, E. Generelle Morfologie de Organismem. Reimer : Berlin. 1866.
  • Lauand, L.J. Os fundamentos da ética. In: Horta, S.R.G.(org.) Ética & Realidade Humana. São Paulo : Edix, 1994. p.1.
  • Lauand, L.J. Justiça hoje, na perspectiva da Ética Clássica. In:______. Interfaces. São Paulo : Mandruvá, 1997. p.44.
  • Linnaeus, C. Systema naturae sive regna tria naturae systematice proposita per classes, ordines, genera et species. Haak : Lerder, 1735.
  • Moisés, M. "Vidas secas": o mundo coberto de penas. Jornal da Tarde, 29 de março de 1997. URL: http://www.jt.com.br/noticias/97-03-29/sa3.htm em 5 de maio de 1998.
  • Whittaker, R.H. New concepts of kingdoms of organisms. Science, v.163, p.150-160, 1969

Fonte: ENA Virtual - Curso: Ética e Serviço Público.

O Que é Sociedade?

 O que realmente é a "sociedade"

O ser humano nasce em um ambiente socialmente organizado. Somente nesse sentido é que podemos aceitar quando se diz que a sociedade — lógica e historicamente — antecede o indivíduo. Com qualquer outro significado, este dito torna-se sem sentido ou absurdo. O indivíduo vive e age em sociedade. Mas a sociedade não é mais do que essa combinação de esforços individuais.

A sociedade em si não existe, a não ser por meio das ações dos indivíduos. É uma ilusão imaginá-la fora do âmbito das ações individuais. Falar de uma existência autônoma e independente da sociedade, de sua vida, sua alma e suas ações, é uma metáfora que pode facilmente conduzir a erros grosseiros.

É inútil perguntar se é a sociedade ou o indivíduo o que deve ser considerado como fim supremo, e se os interesses da sociedade devem ser subordinados aos do indivíduo ou vice-versa. Ação é sempre ação de indivíduos. O elemento social ou relativo à sociedade é a orientação específica das ações individuais. A categoria fim só tem sentido quando referida à ação.

A teologia e a metafísica da história podem discutir os fins da sociedade e os desígnios que Deus pretende realizar no que concerne à sociedade, da mesma maneira que discutem a razão de ser de todas as outras partes do universo. Para a ciência, que é inseparável da razão — instrumento evidentemente inadequado para tratar de problemas desse tipo —, seria inútil envolver-se em especulações desta natureza. Por Ludwig von Mises, segunda-feira, 16 de dezembro de 2013.


Sociedade é ação concertada, cooperação

A sociedade é a consequência do comportamento propositado e consciente. Isso não significa que os indivíduos tenham firmado contratos por meio dos quais teria sido formada a sociedade. As ações que deram origem à cooperação social, e que diariamente se renovam, visavam apenas à cooperação e à ajuda mútua, a fim de atingir objetivos específicos e individuais. Esse complexo de relações mútuas criadas por tais ações concertadas é o que se denomina sociedade. Sociedade é divisão de trabalho e combinação de esforços. Por meio da colaboração e da divisão do trabalho, o homem substitui uma existência isolada — ainda que apenas imaginável — pela existência conjunta. Por ser um animal que age, o homem torna-se um animal social.

No quadro da cooperação social podem emergir, entre os membros da sociedade, sentimentos de simpatia e amizade e uma sensação de comunidade. Esses sentimentos são a fonte, para o homem, das mais agradáveis e sublimes experiências. Elevam a espécie animal homem às alturas de uma existência realmente humana; são o mais precioso adorno da vida. Entretanto, esses sentimentos são fruto da cooperação social e só vicejam no seu quadro; não precederam o estabelecimento de relações sociais e não são as sementes de onde estas germinam.

Os fatos fundamentais que fizeram existir a cooperação, a sociedade e a civilização, e que transformaram o animal homem em um ser humano, é o fato de que o trabalho efetuado valendo-se da divisão do trabalho é mais produtivo que o trabalho solitário, e o fato de que a razão humana é capaz de perceber esta verdade. Não fosse por isso, os homens permaneceriam sempre inimigos mortais uns dos outros, rivais irreconciliáveis nos seus esforços para assegurar uma parte dos escassos recursos que a natureza fornece como meio de subsistência. Cada homem seria forçado a ver todos os outros como seus inimigos; seu intenso desejo de satisfazer seus próprios apetites o conduziria a um conflito implacável com seus vizinhos. Nenhum sentimento de simpatia poderia florescer em tais condições.

Alguns sociólogos têm afirmado que o fato subjetivo original e elementar na sociedade é uma "consciência da espécie". Outros sustentam que não haveria sistemas sociais se não houvesse um "senso de comunidade ou de propriedade comum". Podemos concordar, desde que estes termos um pouco vagos e ambíguos sejam corretamente interpretados. Podemos chamar de consciência da espécie, senso de comunidade ou senso de propriedade comum, o reconhecimento do fato de que todos os outros seres humanos são virtuais colaboradores na luta pela sobrevivência, pois são capazes de reconhecer os benefícios mútuos da cooperação, ao passo que os animais não têm essa faculdade.

Entretanto, não devemos esquecer que são os dois fatos essenciais acima mencionados que fazem existir tal consciência ou tal senso de existência. Em um mundo hipotético, no qual a divisão do trabalho não aumentasse a produtividade, não haveria sociedade. Não haveria qualquer sentimento de benevolência e de boa vontade.

O princípio da divisão do trabalho é um dos grandes princípios básicos da transformação cósmica e da mudança evolucionária. Os biologistas tinham razão em tomar emprestado da filosofia social o conceito de divisão do trabalho e em adaptá-lo a seu campo de investigação.

Existe divisão do trabalho entre as várias partes de qualquer organismo vivo. Mais ainda: existem, no reino animal, colônias integradas por seres que colaboram entre si; tais entidades, formadas, por exemplo, por formigas ou abelhas, costumam ser chamadas, metaforicamente, de "sociedades animais". Mas não devemos jamais nos esquecer de que o traço característico da sociedade humana é a cooperação propositada; a sociedade é fruto da ação humana, isto é, apresenta um esforço consciente para a realização de fins.

Nenhum elemento desse gênero está presente, ao que se saiba, nos processos que resultaram no surgimento dos sistemas estruturais e funcionais de plantas e de corpos animais ou no funcionamento das sociedades de formigas, abelhas e vespas. A sociedade humana é um fenômeno intelectual e espiritual. É a consequência da utilização deliberada de uma lei universal que rege a evolução cósmica: a maior produtividade gerada pela divisão do trabalho.

Como em todos os casos de ação, o reconhecimento das leis da natureza é colocado a serviço dos esforços do homem desejoso de melhorar suas condições de vida.

A cooperação humana

A cooperação humana é diferente das atividades que ocorreram sob as condições pré-humanas no reino animal e daquelas que ocorriam entre pessoas ou grupos isolados durante as eras primitivas. A faculdade humana específica que distingue o homem do animal é a cooperação. Os homens cooperam. Isso significa que, em suas atividades, eles preveem que as atividades incorridas por outras pessoas irão produzir certas coisas que possibilitarão os resultados que eles objetivam com seu próprio trabalho.

O mercado é uma situação, ou um conjunto de situações, em que eu dou algo para você a fim de receber em troca algo de você. Um ditado em latim, há mais de 2.000 anos, já apresentava a melhor descrição do mercado: do ut des — dou algo para que assim você também dê. Eu contribuo com algo de modo que você contribua com algo mais. Com base nisso desenvolveu-se a sociedade humana, o mercado, a cooperação pacífica entre os indivíduos. E cooperação social significa divisão do trabalho.

Os vários membros, os vários indivíduos de uma sociedade não vivem suas próprias vidas sem qualquer ligação ou conexão com outros indivíduos. Graças à divisão do trabalho, estamos constantemente associados a terceiros: trabalhando para eles e recebendo e consumindo o que eles produziram para nós. Como resultado, temos uma economia baseada nas trocas e que consiste totalmente na cooperação entre vários indivíduos. Todo mundo produz, não apenas para si próprio, mas para outras pessoas também, na expectativa de que essas outras pessoas irão produzir para ele. Esse sistema requer atos de troca.

A cooperação pacífica, as conquistas pacíficas dos homens, são todas efetuadas e realizadas no mercado. Cooperação necessariamente significa que as pessoas estão trocando serviços e bens, sendo estes últimos os produtos dos serviços. São essas trocas que criam o mercado. O mercado representa precisamente a liberdade de as pessoas produzirem, consumirem e determinarem o que deve ser produzido, em qual quantidade, com qual qualidade e para quem esses produtos devem ir. Um sistema livre sem um mercado é impossível. O mercado é a representação prática desse sistema livre.

Tem-se aquela ideia de que as instituições criadas pelo homem são (1) o mercado, que é a livre troca entre indivíduos, e (2) o governo, uma instituição que, na mente de muitas pessoas, é algo superior ao mercado e poderia existir na ausência do mercado. A verdade é que o governo — que representa necessariamente o recurso à violência, pois não passa de um poder policial com seu correspondente aparato de compulsão e coerção — não pode produzir nada. Tudo que é produzido de bom é produzido somente pelas atividades desempenhadas por indivíduos, e é disponibilizado no mercado com o intuito de se receber algo benéfico em troca.

É importante lembrar que tudo o que é feito, tudo que o homem já fez, tudo que a sociedade já fez, é o resultado da cooperação e dos acordos voluntários. A cooperação social entre os homens — e isso significa o mercado — é o que cria a civilização. E foi essa cooperação que permitiu todas as melhorias ocorridas nas condições humanas, melhorias essas que podemos usufruir hoje.

Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de "praxeologia11 ("A palavra praxeologia (do grego praxis, ação, hábito, prática e logia, conhecimento, ciência, teoria). Praxeologia é o estudo dos fatores que levam as pessoas a atingir seus propósitos. Portanto, trata-se da ciência ou a teoria geral da ação humana)".

Se a vida em sociedade necessita de acordos e de regras para que ela própria possa se dar e se não nascemos sabendo nem desses acordos, nem dessas regras como nos tornamos seres sociais?

Não teria sido essa necessidade de cooperação que levou o homem a constituir a sociedade e agir para que ela permanecesse?

Vivendo em grupo não seria mais fácil garantir alimento para o grupo? Não seria mais fácil garantir a proteção o grupo?

Isso quer dizer que o homem é um animal gregário, ou seja ele vive com outras pessoas. Ele forma grupos.

Vamos esquematizar um pouco:



Segundo o sociólogo alemão Max Weber, a unidade básica de constituição da sociedade é o indivíduo. Poderíamos afirmar que a coexistência dos indivíduos por um tempo longo ou curto geram os grupos sociais. Dessa coexistência surgem as interações sociais como a cooperação, a competição, o conflito, a comunicação (representado no esquema pelas setas). Quanto mais prolongada for essa coexistência, as interações sociais vão se cristalizando em normas, regras, dando origem às instituições sociais. Assim, podemos dizer que a sociedade é o conjunto de grupos sociais, instituições sociais e indivíduos de um mesmo local, que estão em constante interação entre si.

Mas o que garante que o individuo se veja como integrante desse ou daquele grupo social ou sociedade? E as regras e normas como as incorporamos? Como ocorre a passagem de seres individuais para seres sociais?

Fonte: ENA Virtual - Curso: Ética e Serviço Público.

Política, Para Não Ser um Idiota - Mário Sérgio Cortela

 Leia com atenção as perguntas abaixo:

  • É você que produz sozinho alimento que consome?
  • É você que ensina seus filhos os conhecimentos científicos dentro dos padrões socialmente estabelecidos?
  • É você que produz o combustível que vai ser usado no seu carro?
  • Você já nasceu sabendo tudo o que sabe hoje? Alguém nasce católico ou evangélico?
  • O Estado sempre existiu?

Se a resposta foi negativa para todas essas perguntas e se, como eu, você está na condição de agente público concursado ou não, presta algum serviço a uma infinidade de pessoas, preciso lhe dizer que isso somente é possível pois você, eu, nós, vivemos em uma sociedade.

Em outras palavras, você, eu, nós vivemos num ambiente onde existe certo grau de interdependência entre as pessoas. Nós não só vivemos em sociedade, nós convivemos com outras pessoas.

Acredito que você já tenha travado contato de alguma forma com o Filósofo e Professor Mario Sérgio Cortela. Ele e o ex-ministro da Educação, também Filósofo, Renato Janine Ribeiro, dialogam sobre a sociedade no livro Política, para não ser um idiota. Leia o trecho:

Cortella – A proibição visa evitar que não fumantes sejam constrangidos pelos fumantes.

Janine – Mas há gente que questiona: “A lei pode me impedir de fazer mal a mim? Pode determinar que eu não fume porque isso fará mal a minha saúde?”. Ora, sinto vontade de responder: “Mas quem disse que você escolheu tão livremente fumar? Quem disse que não houve uma propaganda maciça para levar você a escolher fumar (ou a escolher comida gostosa, escolher engordar)? Que liberdade é essa? Você tem razão, Mário, quando afirma que somos alvo de n constrangimentos”. Por isso, penso que a resposta ideal à sua pergunta poderia ser: A política seria uma maneira de lançarmos luz sobre essas teias invisíveis que nos dominam e tentarmos controlá-las.

Cortella – A política é vista ai como convivência coletiva mesmo. Quando se poderia imaginar que o conjunto da sociedade aceitaria a interdição do uso do tabaco em determinados espaços? Ou mesmo a limitação do uso de carros particulares em algumas cidades em dias e horários específicos, ou ainda de fazer ruído a partir de determinada hora, mesmo que moremos cada um em sua própria domus, ou seja, em sua casa? Mas a questão é que não temos domus, só temos con-domínios. Viver é conviver, seja na cidade, ainda que me casa ou prédio, seja no país, seja no planeta. A vida humana é condomínio. E só existe política como capacidade de convivência exatamente em razão do condomínio. Daí o indivíduo pergunta: “Mas e meu direito de sair com meu carro quando quiser, ou de fazer ruído até a hora que eu desejar?”

Outro dia, eu voltava de Campinas para São Paulo pela rodovia dos Bandeirantes, e na frente havia um caminhão-baú, desses fechados e grandes, ostentando, na traseira, aquela frase obrigatória para algumas empresas: “Como estou dirigindo?. Mas ele deu sequência à frase, assim: “Como estou dirigindo? Mal? Dane-se, o caminhão é meu”. Essa lógica “do caminhão é meu” significa “eu faço o que quero, sou livre”. Ora, esse exercício da liberdade como soberania é algo que se aproxima da ideia da idiótes. Não sou soberano. Entretanto o indivíduo afirma: “Eu sou soberano sobre mim mesmo”.

Mas ser soberano sobre si mesmo não é política. Ou será que é?

CORTELLA, Mário Ségio; RIBEIRO, Renato Janine. Política: Para não ser idiota. Campinas, São Paulo: 2015.


Creio que até aqui já tenha ficado claro duas coisas: a primeira, que o homem não consegue levar a vida que leva atualmente sem a sociedade lhe dando suporte; e a segunda é que não existe sociedade sem regras, normas. Elas são interdependentes.

O próximo texto vai permitir entender melhor porque o homem vive em sociedade e que vantagens são obtidas a partir dessa “escolha”. 

Fonte: ENA Virtual - Curso: Ética e Serviço Público.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O Relato Inédito dos Sobreviventes dos Andes

Quatro décadas depois, e pela primeira vez, os 16 uruguaios que saíram vivos de um acidente aéreo contam como enfrentaram 72 dias na neve - e lembram o desespero e a dor de se verem obrigados a praticar o canibalismo


VOLTA À VIDA
Cena do resgate dos 16 jovens em dezembro de 1972, nos Andes

O recém-lançado livro “A Sociedade da Neve” (Companhia das Letras), do escritor uruguaio Pablo Vierci, reúne os relatos inéditos e pessoais dos 16 sobreviventes da queda de um avião da Força Aérea do Uruguai, em 1972, numa remota região dos Andes. Estavam a bordo 45 pessoas que viajavam de Montevidéu para Santiago, no Chile, entre elas um time de jogadores de rúgbi. Havia cinco tripulantes. A aeronave chocou-se com os Andes e caiu. Dezesseis pessoas morreram na hora e, dos 29 sobreviventes, 13 foram morrendo ao longo dos 72 dias em que ficaram isolados na montanha. O grupo que conseguiu manter-se vivo o fez alimentando-se da carne de seus companheiros mortos. O fatídico episódio foi retratado em documentário, no cinema (“Vivos”, de Frank Marshall) e na literatura (“Os Sobreviventes – A Tragédia dos Andes”, do inglês Piers Paul Reed). Essa é, no entanto, a primeira vez que todos os 16 sobreviventes concordam em abrir suas tristes e dolorosas recordações. Por isso, a obra agora lançada é a mais completa de todas.

DESTINO
Foto tirada no avião pouco antes do acidente (acima). 
Abaixo, sobreviventes na fuselagem da aeronave

O autor revela que, após o resgate, autoridades do governo uruguaio aconselharam os jovens a não contar como tinham sobrevivido, “que a verdade, se pública, os assombraria para sempre”. Na época, Nando Parrado e Roberto Canessa, os expedicionários que conseguiram atravessar os Andes e pedir socorro a um montanhista, se negaram a esconder os fatos. Os relatos também detalham a rotina do grupo e sua estratégia de sobrevivência. Os integrantes dessa “sociedade da neve” – como eles se autodenominaram – concordaram em explicar como lidaram com o maior tabu envolvido no desastre: a ingestão de carne humana. A decisão foi tomada após o décimo dia do acidente, quando eles ouviram no rádio (que funcionou durante algum tempo) a notícia de que o resgate havia sido encerrado. O livro revela como dois deles, estudantes de medicina, tomaram a frente dessa iniciativa e, com os conhecimentos que tinham, tentaram prover a todos com os nutrientes mínimos. Entre os agonizantes e os menos famélicos que ainda conseguiam se mover e falar criou-se um “pacto de amor e solidariedade”: os que sabiam que a morte era questão de minutos incentivavam os ainda vivos a se servirem deles. Era como se houvesse um “te perdoo” antecipado. Isso, no entanto, em nada aliviava a dor e o desespero daquele que iria, para todo o sempre, levar consigo esse ato extremo.


RELATO HISTÓRICO 
Livro reúne depoimentos inéditos dos sobreviventes, entre eles Gustavo Zerbino, Adolfo Strauch, Moncho Sabella e Roberto Canessa (abaixo), que voltaram ao local em 2006 em homenagem aos companheiros mortos


Eles constituíram uma comunidade em estado de necessidade, única condição jurídica em que uma ação entendida pela sociedade como criminosa deixa de ser assim considerada. Os 16 sobreviventes retornaram ao local do desastre em 2006 num ato de oração e gratidão aos companheiros que morreram. A leitura de seus depoimentos hoje traduz, com o inevitável distanciamento emocional que o tempo a tudo empresta, somente um esforço hercúleo pela vida de quem há 38 anos precisou duelar com as próprias convicções morais, desafiadas pela iminência da morte na natureza selvagem onde se encontrava.
 

Confira capítulo do livro "A Sociedade da Neve"
1. Março de 2006: voltar à montanha
Subir até a geleira no Vale de las Lágrimas em março de 2006, onde está sepultada a fuselagem do F571 que caiu no sopé das serras de San Hilario, entre os vulcões Tinguiririca e Sosneado, é uma experiência arriscada.

Implica um percurso longo, uma subida vagarosa de dois dias a cavalo em trilhas improvisadas, com menos de meio metro de largura, o precipício sempre ao lado, numa cordilheira cujas paisagens e alturas mudam continuamente, mas onde a vertigem do risco iminente está sempre presente. Avança-se devagar, passo a passo, seja na montanha ou quando se atravessam as correntes impetuosas de água gelada que descem da cordilheira arrastando tudo no caminho. Parecem querer levar até mesmo as mulas e os cavalos, que cambaleiam mas não caem, firmando os cascos entre as pedras no fundo antes de dar o passo seguinte. Alguns cavaleiros avançam de olhos vendados para evitar os sobressaltos, confiando no instinto dos animais.

A cada trecho surge uma imagem ou algum imprevisto que faz você tremer. Tempestades de neve e ventos irrompem subitamente. Uma mula desliza barranco abaixo por vários metros, esperneando e levantando tanta poeira que fica impossível observar o desenlace, até que consegue firmar os cascos numa saliência da descida, com o cavaleiro curvado e agarrado à crina. Um cavalo tropeça, apoia um joelho na trilha e fica se equilibrando no ar com as patas traseiras sobre o precipício. Uma mula de carga se assusta com a ventania e sai correndo em meio às rochas, galopando montanha abaixo, largando sua carga pelo caminho, enquanto um tropeiro dispara atrás dela a galope. Os códigos já estão se alterando; a vertigem integra a paisagem. O grupo se aproxima da pré-história.

Dois dias depois, quando se chega ao Vale de las Lágrimas, a quase 4 mil metros de altitude, no centro da cordilheira dos Andes, na fronteira entre o Chile e a Argentina, o panorama é grandioso e aterrador. Faz lembrar um anfiteatro monumental: ao centro, sobre um promontório de rochas, há uma cruz de ferro onde estão enterrados os restos dos mortos no acidente. Ao sul se divisa uma sucessão infindável de montanhas e picos que vão até o Cabo de Hornos, no fim do continente. Ao norte, uma paisagem semelhante se estende até o Panamá, desdobrando seus 7240 quilômetros de extensão e constituindo um maciço montanhoso mais longo que o Himalaia; a oeste a visão se choca com um paredão de rochas e gelo de 5180 metros de altura, a serra de San Hilario, tão imponente que impede qualquer tentativa de se imaginar o horizonte. Para trás, a leste, retorna-se à Argentina, de onde veio o grupo a cavalo. Os infindáveis picos nevados culminam, na distância enevoada ao leste, no mais alto de todos: o vulcão Sosneado, de 6 mil metros de altura. Nessa paisagem de fim de mundo reina um silêncio inorgânico, interrompido de vez em quando pela violência do vento e o rangido da geleira.

É necessário deixar os cavalos, que precisam descer mil metros antes que o sol se ponha entre as montanhas para não morrerem congelados. Depois o grupo tem de caminhar mais oitocentos metros a oeste da cruz de ferro até o local exato onde a fuselagem do Fairchild está soterrada, no meio da geleira. Falta oxigênio, cada passo exige um esforço maior que o anterior. Náusea, confusão, dor de cabeça, o mal da altitude começa a se insinuar no corpo dos menos acostumados.

Quatro sobreviventes do acidente de 1972 fazem parte do grupo: Roberto Canessa, Gustavo Zerbino, Adolfo Strauch e Ramón “Moncho” Sabella. Acompanha-os também Juan Pedro Nicola, cujos pais faleceram no acidente. Como todos do grupo, ele traz o filho, para que conheça a sepultura onde descansam os restos de seus avós e dos outros que nunca mais voltaram. O filho observa o pai, que está absorto, o olhar perdido nas cinco agulhas de pedra com que o avião se chocou.

Quando a geleira fica mais próxima, e o paredão de neve da serra de San Hilario tem suas dimensões aumentadas, os integrantes do grupo precisam se amarrar uns aos outros e colocar crampons nas solas das botas antes de continuar a subida. A geleira, com a fuselagem bem no centro, está logo ali, atravessada de lado a lado por gretas de vinte a trinta metros de profundidade, dissimuladas por finas camadas de gelo. Três montanhistas profissionais vão à frente, sondando o terreno com suas piquetas e bastões. Alguns metros atrás seguem os quatro sobreviventes.

A paisagem que Gustavo Zerbino viu no dia 13 de outubro de 1972, às 15h35, momentos depois do acidente, quando a fuselagem destroçada encalhou no meio da geleira depois de deslizar a uma velocidade estonteante, ziguezagueando, chocando-se contra os conjuntos rochosos que surgem em meio à ladeira de neve, pouco mudou nesses 34 anos. A primeira coisa que ele viu, ao sul, foram as encostas abruptas cobertas de neve e coroadas no alto com as pontas de pedra observadas poucos momentos antes por Juan Pedro Nicola. As mais altas são as dos extremos, e foi contra uma dessas que se chocou a asa esquerda do avião, e seu ventre com as do meio, quando se deslocava com os motores roncando ao máximo, numa tentativa desesperada de evitar uma colisão que àquela altura, com a direção já totalmente perdida, era inevitável. Na direção do oeste, observado do ponto onde se encontra a fuselagem, o paredão de rochas cobertas de neve parece incrustado em posição vertical, humanamente inalcançável, a não ser por uma façanha acima de qualquer lógica, ou a menos que se esteja vivendo em uma sociedade desconhecida.

No dia 13 de outubro de 1972, às 15h37, Gustavo Zerbino, com dezenove anos de idade, pertencente ao grupo dos mais novos, vivenciava o mesmo que agora. Sentia falta de ar, não tinha forças, era assolado por dor de cabeça e estava muito confuso. Saiu ileso, mas precisava ajudar o amigo Roberto Canessa, da mesma idade, a escapar da armadilha onde caíra imobilizado debaixo de dois assentos arrancados inteiros pelo impacto que o deixaram preso entre ferros cortantes e pontiagudos. Imediatamente, os dois começam a retirar os assentos que prendem os demais, feridos ou ilesos. Para remover alguns cadáveres presos aos ferros retorcidos e aos destroços da fuselagem, precisam amarrá-los pelos pés usando os cintos de segurança e arrastá-los de quatro até a neve, para deixá-los ali sem mais, de bruços, a três metros do desastre.

Gustavo corre com determinação para ajudar no que pode. Não há tempo para pensar, apenas para colaborar com Roberto, que enquanto cuida de um ferido examina o pulso de um moribundo, momentos antes de improvisar um torniquete de emergência para conter o sangramento de Fernando Vásquez, que teve uma perna ferida pela hélice da asa direita que se soltou e avançou na direção do aparelho. Logo depois ele retorce a tíbia quebrada de Álvaro Mangino, encaixando-a no lugar e afastando-o do caminho: já foi atendido. Agora é a vez de outro, um companheiro emaranhado entre ferros, tremendo, com uma ferida na barriga, que logo se ergue para mostrar a Gustavo o tubo de metal cravado em suas entranhas.

— Não está doendo. Só sinto frio — diz Enrique Platero.

Hoje está tudo intacto. Como se o tempo tivesse congelado. Não há ferrugem nos restos do avião espalhados pelo local. Na asa esquerda, partida ao meio exatamente onde ficava a hélice, brilham com nitidez as velhas inscrições, o lugar de fabricação, a data, as instruções técnicas. O céu se fecha de repente e o grupo decide voltar oitocentos metros até o promontório de pedra onde está a cruz de ferro, ao lado da qual se montaram duas barracas especiais para a montanha.
Nuvens escuras avançam ameaçadoras, anunciando o vento e as tempestades de neve que logo fazem as barracas sacolejarem como se fossem arrancá-las do chão. Adolfo Strauch, que em 1972 pertencia ao grupo dos mais velhos, com 24 anos, anuncia a iminência de uma avalanche. Observa com atenção, e logo depois de fazer sua advertência ele mostra para a filha, Alejandra, como se produz um gigantesco desprendimento de neve acumulada no grande paredão a oeste, que provoca à sua passagem um forte estrondo e gera um rastro de vapor. Mas agora eles estão a salvo, a oitocentos metros de onde se encontram os destroços do avião de 72.
De pé junto à cruz de ferro, com o braço sobre o ombro de Roberto Canessa, Gustavo Zerbino vibra como se estivesse vivendo um presente contínuo. Na noite anterior, no acampamento-base de El Barroso, numa barraca de montanha que dividiu com um de seus filhos, no meio do caminho para o Vale de las Lágrimas, Gustavo não conseguiu dormir, assolado por náuseas e pesadelos. Ao amanhecer, ele monta seu cavalo e sobe em silêncio, isolando-se no tempo. Quando consegue enxergar o Vale de las Lágrimas, já está a bordo do F571. Seu relato, agora, se mescla com suspiros, intercala-se com recordações tão vivas que ele chega a sentir que está dando um passo atrás, como em 1972, para se afastar dos destroços fantasmagóricos do avião partido.
No instante em que a aeronave se chocava com a agulha de pedra, às 15h30, depois de despencar por uma coluna de vácuo ilimitada, Gustavo livrou-se inconscientemente do cinto de segurança e ficou de pé no corredor, segurando com toda força os suportes metálicos que delimitavam os bagageiros, para não voar com o choque. Sentiu o impacto, e logo depois os assobios do vento gelado e da neve que castigavam sua cabeça, as costas e as pernas, e contou os segundos intermináveis que o corpo partido do avião levava patinando sobre o gelo até parar abruptamente, esmagando assentos e pessoas contra o compartimento de bagagens e o dos pilotos.
Roberto Canessa sente o impacto da asa contra as rochas e agarra a poltrona à sua frente com todas as forças. Surgem em sua mente imagens soltas, impetuosas e confusas, que o encaminham a um único desenlace: ele está protagonizando um acidente aéreo na cordilheira dos Andes. A qualquer momento ele se espatifará contra a montanha e conhecerá o que se esconde do outro lado da vida.[Fonte: IstoÉ]

O Desencanto com o Brasil

Um estudo inédito revela o que os brasileiros pensam do País: um lugar desonesto, violento e ruim para se viver

Amauri Segalla (asegalla@istoe.com.br) e Paula Rocha


Se o Brasil fosse uma pessoa, como ela seria? Alegre? Confiável? Distinta? Para uma parcela considerável da população, nenhum desses atributos traduz a verdadeira alma brasileira. Se o Brasil fosse alguém de carne e osso, a principal característica, aquela que se vê logo de cara, seria a desonestidade. Um estudo inédito realizado pela consultoria BrandAnalytics, empresa ligada à Millward Brown Optimor, um dos maiores grupos de pesquisa do mundo, revela o que os brasileiros pensam do País. Obtidos com exclusividade por ISTOÉ, os resultados são espantosos. Os entrevistados receberam uma lista com 24 palavras e tiveram que apontar quatro delas que definissem com exatidão a nação onde vivem. Metade das pessoas declarou que a palavra “desonesto” descreve a personalidade nacional. E mais: apenas 18% das pessoas afirmaram que o Brasil é o lugar ideal para viver, praticamente o mesmo percentual (17%) que apontou o Japão como o país preferido. Trata-se do índice mais baixo entre quatro nações pesquisadas. Segundo o estudo, 52% dos americanos, 30% dos ingleses – pessimistas por natureza, lembre-se – e 26% dos chineses escolheram seu próprio país como o lugar perfeito para viver. Não é preciso muito esforço para entender o que a pesquisa evidencia. Os brasileiros estão, afinal, desencantados. “O levantamento mostra um índice de insatisfação surpreendente”, diz Isa Telles, associada da BrandAnalytics e coordenadora do estudo. A mesma descrença é confirmada pela pesquisa ISTOÉ/Sensus, tema da reportagem de capa desta edição. Neste caso, 50,2% dos brasileiros não consideram que o País está no rumo certo.


O que explica tanta desilusão? Basta dar uma espiada no noticiário para conhecer a incivilidade que permeia a vida de cada um de nós. Em São Paulo, alguém esquarteja o corpo de um motorista de ônibus e espalha partes dele pela cidade. No Rio, amarram um negro num poste e o espancam. Em Brasília, presos graúdos passam o tempo vendo jogos de futebol em tevês de plasma, enquanto no resto do País os cárceres são depósitos humanos degradantes. Em Belo Horizonte, hospitais públicos recusam atendimento a uma criança à beira da morte. No Nordeste, faltam professores. Em quase todo o Brasil há escassez de água, e os governos, sejam eles de qualquer cor partidária, atribuem a culpa sempre aos outros, sem jamais assumir responsabilidades. Por onde se anda as pessoas reclamam do preço de tudo o que se consome, do tomate na feira, do iPhone na loja da Apple, da passagem de ônibus, do carro esportivo. A economia não anda. As obras da Copa não saíram como o prometido. Os políticos querem o poder apenas pelo poder. O trânsito é horrível. A violência bate à nossa porta. Como ser feliz em um lugar assim? “Os resultados da pesquisa demonstram que grande parte da população não confia nem no País nem no seu semelhante”, diz Dulce Critelli, professora de filosofia da PUC de São Paulo. “É a representação concreta da ideia de que é preciso se defender não só dos outros, mas também de seus governantes.”


Talvez isso explique por que cada vez mais brasileiros achem que a melhor saída é o aeroporto internacional. Moradores do Rio de Janeiro, o publicitário Pedro Henrique Ramos, 31 anos, e a produtora cultural Liana Saldanha, também 31, estão aprontando as malas para mudar para Portugal, em julho. Na terra dos antepassados, acreditam, terão melhores condições para criar os futuros filhos. “Comparo a vida de meus amigos que moram em Portugal com a dos que vivem no Brasil e vejo que lá fora há mais perspectivas”, diz o publicitário. “Aqui não temos serviços públicos decentes nem escola e hospitais.” O que impressiona é que, profissionais de certo sucesso no Brasil, eles vão largar tudo para se aventurar mundo afora. Mesmo diante das incertezas de lá, acham que vale a pena fugir das certezas desagradáveis daqui.


Se você nunca foi enganado, pergunte a um parente ou amigo se já sofreu algum golpe e a resposta provavelmente será sim. As mazelas nacionais estão aí, em qualquer área ou atividade, tão visíveis quanto um assalto à luz do dia. A secretária Daiane Alves de Lima, 20 anos, foi convencida a pagar R$ 80 – sim, apenas isso – por mês para comprar a casa própria. Era uma mentira, um golpe deslavado. “Não desconfiei de nada”, diz. “Só quando compareci a uma reunião do projeto é que passei a questionar a validade dele.” Daiane perdeu dinheiro e pediu a ajuda do Instituto Nacional de Defesa do Consumidor do Sistema Financeiro para checar se deveria continuar no projeto. Na saúde, os golpes se sucedem. A securitária Luciane de Paula e Silva, 41 anos, decidiu fazer, em abril de 2013, uma cirurgia para colocação de um balão intragástrico em uma clínica particular. Pagou R$ 12.712 pelo serviço. Um dia antes da operação, foi informada que ela havia sido cancelada. “Naquele momento, decidi desistir da cirurgia, pois perdi a confiança na clínica”, diz ela. O que Luciane não sabia é que ali começaria uma batalha que se arrasta até hoje. “Fiz um acordo com a clínica em que eles me devolveriam parte do dinheiro da cirurgia”, conta. “Para o meu espanto, os cheques da clínica voltaram, pois não tinham fundos.”


A pesquisa da BrandAnalytics confirma o que outros estudos já sugeriram: o descrédito profundo nas instituições, quaisquer que sejam elas. Segundo o levantamento, 81% dos entrevistados disseram que, para realizar seus sonhos, dependem essencialmente de esforços individuais. Só 13% responderam que precisam do suporte do governo. João Bico de Souza, 47 anos, é dono da Tecnolamp, uma empresa de iluminação com 40 funcionários diretos e 400 colaboradores temporários. “Abrir a empresa foi uma dificuldade”, diz. “Foram pelo menos dois meses de protocolos e burocracias.” João é o que se pode chamar de empreendedor nato. Filho de operário e de dona de casa, começou a trabalhar aos 15 anos, como balconista. Aos 22, já era empresário. O que o Brasil ofereceu para que seguisse em frente? Pouca coisa. “Falta apoio ou retorno do governo”, afirma. Tudo o que conseguiu, assegura ele, foi graças ao seu brutal esforço.


No clássico “Raízes do Brasil”, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, ao falar do homem cordial como uma marca indestrutível do caráter brasileiro (cordial não quer dizer para ele bondoso, mas retrata principalmente os que agem movidos pela emoção e não pela razão), desdobra-se também sobre o que chama de “personalismo” do cidadão brasileiro. No Brasil, diz Holanda, as pessoas cultuam o mérito pessoal (é o popular “cada um por si”), em vez do trabalho coletivo. O individualismo exacerbado se reflete, na análise do historiador, em organizações sociais e governos frágeis. “A nossa pesquisa revela que o brasileiro não tem uma visão de País”, diz Isa Telles, da BrandAnalytics. Seria isso resultado da conjuntura ou de um processo histórico? Provavelmente, as duas coisas. Se o individualismo contribuiu para a formação do que se pode chamar de psique brasileira, nos dias atuais ganhou alento graças ao desgosto com os rumos do País.


O grau de insatisfação dos brasileiros começou a ser escancarado em julho do ano passado, quando milhares de pessoas foram às ruas gritar contra as coisas erradas do País. Mas é um equívoco dizer que tudo ficou ruim de repente. De certo modo, o desencanto tem a ver com o próprio despertar dos brasileiros. É inegável que o Brasil avançou em muitas áreas nos últimos anos. A miséria diminuiu, a classe C teve acesso a bens como jamais tivera, a renda dos trabalhadores aumentou. Mas será apenas isso que buscamos? Com o avanço da economia, os brasileiros passaram a conhecer outras realidades. Viajaram, foram morar fora e com a internet tiveram maior acesso à informação. Descobriram, enfim, que há muitos mundos por aí – e realidades mais amigáveis que a nossa. O economista alemão Albert Hirschman desenvolveu uma teoria psicológica que explica a baixa tolerância das pessoas com o seu próprio destino quando se deparam com outro melhor. Ele chamou isso de “efeito túnel.” Se você está num congestionamento e a pista ao lado começa a andar, logo se enche de esperança e imagina que seu carro vai se movimentar também. Se a expectativa é frustrada, você fica furioso: “Por que eu não estou na outra pista?”




Falar mal do Brasil é um dos esportes preferidos da nação. Sempre foi assim. Sobre o País, o jurista, político e escritor Ruy Barbosa disse o seguinte lá no século XIX: “De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar diante da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.” O que Barbosa disse não é muito diferente do sentimento de desencanto revelado pelos brasileiros na pesquisa da BrandAnalytics. “Se para a corrupção não há punição, a sociedade acaba se acostumando com as transgressões diárias das leis”, diz o economista Gil Castello Brasil, da Ong Contas Abertas. “Mudar essa cultura depende de um longo processo de educação. Nesse sentido, mostrar-se insatisfeito e indignado é bastante positivo.” O cientista político Fernando Weltman, da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, acha que o resultado do estudo expõe a baixa autoestima do brasileiro, consagrada por Nelson Rodrigues na expressão “complexo de vira-latas.” “As características apontadas na pesquisa reforçam o estereótipo de que os brasileiros são simpáticos e charmosos, mas podem te passar a perna”, diz Weltman.


Isso realmente corresponde à realidade? Olhe para o lado e pense bem: a maioria das pessoas de seu convívio é desonesta? Elas querem levar vantagem sobre você? Não teria sido a impressão generalizada de desonestidade apontada na pesquisa um reflexo da má imagem que temos de nossos governantes? Não seria resultado dos índices chocantes de violência? Segundo a BrandAnalytics, hoje a maior preocupação dos brasileiros diz respeito justamente à segurança – segundo a ONU, 11 das 30 cidades mais violentas do mundo são brasileiras. É desnecessário dizer que, por mais que o Brasil tenha alimentado uma lamentável escola do crime nos últimos anos, as pessoas de bem, claro, representam larga maioria. O interessante da pesquisa é que os brasileiros julgam o Brasil um país desonesto, mas avaliam a si mesmos de maneira positiva. “É natural atribuir a si qualidades, mas achar que os outros não as têm”, diz Weltman, da FGV. Se metade dos entrevistados acredita que a principal característica do País é a desonestidade, 58% se dizem dignos de confiança. Ou seja, o meu vizinho é mau, mas eu sou bacana. No fundo, o que a pesquisa revela é que o Brasil tem um milhão de problemas para resolver e é só com a indignação – e o desencanto – que dá para sonhar com um país verdadeiramente melhor. [Fonte: IstoÉ]

Foto: Felipe Varanda, Pedro Dias, João Castellano/Ag. Istoé, Pablo Jacob / Agência O Globo; MARCOS BIZZOTTO; Rogério Cassimiro/Folha Imagem.